Foi no silêncio, numa conversa comigo mesmo, que a pergunta surgiu. Não foi dramático, não veio acompanhado de música épica ou de uma epifania cinematográfica. Foi simplesmente isto: "Afinal, o que é que eu tenho?"
Comecei a fazer uma lista mental, como tudo o que fazemos quando queremos nos sentir seguros. Os meus pais, o meu irmão, pessoas que amo. Mas então a verdade bateu à porta de forma incómoda: eles têm a vida deles. São familiares preocupados, presentes, mas não os possuo. Nunca consegui. E os filhos, quando os temos, repetimos o padrão invertido. Preocupamo-nos, zelamos, amamos intensamente, mas depois de adultos, eles também não nos pertencem. Têm os seus caminhos, as suas vidas, as suas escolhas.
E os bens materiais? Essa ilusão é ainda mais cruel. Dizemos "a minha casa", "o meu carro", mas no fundo estamos apenas a gerenciar dívidas bonitas. Pagamos impostos anuais por tudo o que afirmamos possuir. Se algo é realmente nosso, porque temos de pagar continuamente para o manter? É como se alugássemos a própria existência. Um contrato renovável, revogável, dependente da nossa capacidade de continuar a pagar.
E aqui está a parte mais perturbadora: o nosso trabalho, aquilo que produzimos com o nosso tempo, o nosso corpo, a nossa mente. Dizem-nos quanto vale o nosso salário, mas antes de o tocarmos, já pagamos impostos sobre ele. Produzimos, mas não somos donos do que produzimos. Trabalhamos, mas não controlamos o fruto do nosso trabalho. Enriquecemos outros enquanto nos dizem qual é o nosso "merecimento".
Passamos a vida inteira numa corrida frenética. Corremos para ter a casa, o carro, o telemóvel mais recente, as férias que todos fazem, a roupa que está na moda. Corremos para pagar o que já temos. Corremos para manter a ilusão de propriedade. Corremos para provar que somos bem-sucedidos. E no meio desta corrida toda, esquecemos-nos da única coisa que realmente nos pertence: o momento presente.
Mas esse momento, esse precioso e fugaz agora, começamos a trabalhar para pagar por coisas que nunca serão reais nossas. Trocamos o tempo, que é finito e irrecuperável, por objetos que podemos perder a qualquer momento, por casas que o banco pode retomar, por carros que se desvalorizam enquanto dormimos.
A verdade mais dura é esta: construímos prisões e chamamos-lhes sonhos. Aceitamos correntes e chamamos-lhes responsabilidades. Vivemos vidas inteiras em função de posses que não possuímos, de aprovações que não controlamos, de sucessos medidos por réguas que outros inventaram.
Olha à tua volta. Quanto você rodeia é realmente seu? Não no sentido legal, com papéis e contratos. Mas verdadeiramente teu. Você não poderá ser retirado. Que não depende de pagamentos mensais. Que não existe apenas enquanto você tiver dinheiro para se manter.
E mais importante ainda: quanto da sua vida é realmente sua? Quantas horas do teu dia decide tu? Quantos dos teus sonhos são teus, e quantos foram colocados lá por publicidades, por expectativas sociais, por essa voz coletiva que nos diz o que devemos querer?
Não tenho respostas simples. Não venho aqui vender-te uma solução embalada. Mas talvez a primeira forma de resistência seja simplesmente isto: parar. Parar de correr. Para acumular. Parar de pagar por uma vida que deveria já ser sua.
E no silêncio dessa pausa, pergunte: se tirarem tudo o que pode ser tirado, se deixarem apenas o que ninguém me pode roubar, o que sobra?
Talvez aí, só aí, comece a perceber o que é realmente seu.
"Passamos a vida a pagar por aquilo que nunca nos pertencerá, enquanto perdemos o único bem real nosso: o tempo que não volta."
-HL Lemos
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