Quando comecei a observar as melhores coisas, percebi algo perturbador: o mundo que eu tinha vendido não era mundo nenhum. Eram paredes de tijolo e betão. Eram centros comerciais que muitos admiravam como se fossem templos modernos. Eram telas a dizer-me como viver, o que comprar, quem ser.
Mas o mundo verdadeiro estava ali, sempre esteve. Sem vento na cara. Não é simples som de um passarinho a cantar de manhã. No curso de um rio que não pede licença a ninguém para fluir. Na enorme árvore que já viu muitas histórias, que testemunhamos gerações inteiras enquanto corremos de um lado para o outro como se tivéssemos todo o tempo do mundo, quando na verdade não temos tempo nenhum.
Temos tudo para passear pela natureza. Florestas, praias, montanhas, campos. Mas preferimos os centros comerciais. E por quê? Porque lá sentimo-nos importantes. Porque isso dá estatuto. Porque passear pela natureza é "para quem não tem nada que fazer", dizem. Como se no centro comercial se fizesse muito mais do que andar em círculos entre lojas que vendem coisas de que não precisamos, com dinheiro que não temos, para impressionar pessoas que nem conhecemos.
A verdade é esta: perdemos o contato. Desconectámo-nos do ritmo que nos deu vida. Vivemos rodeados por luzes artificiais que nos enganam sobre a hora do dia. Sons artificiais que abafam o silêncio do que tanto precisamos. Paisagens artificiais que substituem o real por uma cópia empobrecida. Comemos comida processada, artificial, porque nos dizem que a natural faz mal. Sim, leste bem. Convencem-nos de que o que vem da terra é perigoso, mas o que sai das fábricas é seguro.
Vivemos em ciclos que não são nossos. Dormimos quando as obrigações deixam, não quando o corpo pede. Comeremos quando a pausa permitir, não quando tivermos fome. Descansamos quando nos dão autorização, não quando precisamos. E depois admiramos por estarmos exaustos, ansiosos, perdidos.
Perdemos o sentido de vida e orientação. Já não sei de onde vem a comida que comemos. Não conheço os ciclos das estações. Não sentimos a diferença entre um dia de sol e um dia de chuva porque estamos sempre dentro de edifícios com temperatura controlada. Tornámo-nos alheios ao planeta que nos sustenta, como se fôssemos inquilinos de passagem e não parte integrante deste organismo vivo.
E no meio desta desconexão toda, algo dentro de nós morre lentamente. Não é dramático. Não fiz de forma aguda. É um desligamento gradual, como uma planta que seca por falta de sol. Deixamos de sentir. Deixamos de estar presentes. Tornamo-nos autómatos cumprindo horários, pagando contas, seguindo rotinas inventadas por um sistema que nos quer produtivos, não vivos.
Mas aqui está a parte que eles não te contam: a natureza cura. Não é metáfora. Não é romantismo. É fato. Quando paras e sente o vento na cara, algo dentro de você se lembra. Quando ouves o canto de um pássaro sem auscultadores nos ouvidos, uma parte esquecida de ti acorda. Quando tocas numa árvore, quando vocês descalço na terra, quando simplesmente paras e respiras são verdadeiros, o teu corpo regularmente: isto é real. Isto sempre foi real.
A natureza não te pede nada. Não quero que compre nada. Não te julgue por não seres produtivo. Não se importa com o teu estatuto social. Está simplesmente lá, a operar no seu próprio ritmo, a lembrar-te que tu também fazias parte deste ritmo antes de te convenceres do contrário.
E talvez seja por isso que nos salvaram dela. Talvez seja por isso que nos dizem que passear na natureza é perder tempo. Porque uma pessoa conectada com a natureza é uma pessoa conectada consigo mesma. E uma pessoa conectada consigo mesma é muito mais difícil de controlar, de manipular, de convencer a comprar coisas do que não precisa, de viver vidas que não quer.
Não tens de largar tudo e ir viver para uma montanha. Não é sobre isso. É sobre lembrar. É sobre voltar, nem que seja por momentos. É sobre sentir a chuva em vez de te esconder dela. É sobre observar o pôr do sol em vez de fotografar para as redes sociais. É sobre caminhar numa floresta e perceber que aquela árvore enorme já estava ali muito antes de você, e continuará muito depois, independentemente de suas preocupações sobre prazos, pagamentos e aprovação social.
É sobre reconectar com o único ritmo que realmente importa: o da vida. Ó da tua vida. Não a que te vendessem, mas a que sempre esteve aqui, à espera que voltasses.
A natureza não te abandonou. Foste tu que te afastaste. Mas ela continua lá. Sempre contínuo. E quando estivermos prontos para voltar, não haverá julgamento. Apenas o vento na cara, o som dos pássaros, e a lembrança de que sempre pertenceste ali.
"Construímos catedrais de betão e esquecemo-nos de que a verdadeira grandeza sempre esteve nas árvores que já viram séculos passarem."
-H.L. Lemos
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