Aos 53 anos, ainda consigo sentir o cheiro. Não é uma memória visual, é olfativa, visceral. O cheiro do pão a cozer no forno a lenha da minha avó. Aquele aroma denso que invade uma casa toda, que se misturava com o fumo da madeira e com algo mais antigo, algo que não tem nome mas que teve casa , pertença , raízes . Hoje, quando passo pela padaria industrial do centro comercial, sinto um cheiro qualquer a pão. Mas não é o mesmo. Nunca será. E foi aí que essa diferença entre o pão da minha avó e o pão embalado em plástico, que comecei a perceber: estamos a perder algo fundamental. Não estamos apenas a perder receitas ou técnicas. Estamos a perder uma linguagem inteira de ser humano.
Vivemos a era da informação, mas sofremos de uma amnésia coletiva profunda. Temos acesso a milhões de receitas online, mas não sabemos o que a nossa bisavó cozinhava. Conhecemos influenciadores de países distantes, mas não sabemos o nome da senhora que vive três portas ao lado. Comemoramos o Halloween com entusiasmo, mas esquecemos os rituais que as nossas avós fizeram na passagem das estações. Como é que isso aconteceu? Como é que uma espécie que durante milénios transmitiu conhecimento de geração em geração, que guardou segredos de cultivo, de cura, de construção, de celebração, simplesmente... esqueceu? A resposta é tão simples quanto devastadora: Disseram-nos que o antigo estava atrasado. Que o tradicional era independente de ignorância. Que progresso foi feito para cortar as raízes.
Lembro-me de ter vergonha quando minha avó falou o dialeto da terra dela. Vergonha. Como se a língua que alimentou gerações fosse algo escondido. Lembro-me de amigos que mencionaram as profissões dos pais, agricultores, carpinteiros, pedreiros, como se trabalhar com as mãos fosse menos digno que trabalhar com numa função secretária. O sistema educativo ensinou-nos matemática e história dos reis, mas ninguém nos ensinou a plantar um semente, a fazer pão, a identificar as ervas que curam. Porque essas coisas, diziam-nos, eram do passado. E nós, ansiosos por sermos modernos, por sermos aceitos, por não sermos os "atrasados", engolimos a narrativa toda.
Mas quem nos roubou, afinal? Apontemos os dedos, porque eles merecem ser nomeados. O sistema educativo que valoriza apenas o conhecimento acadêmico e trata a sabedoria prática como inferior. Que diploma certifica quem sabe fazer um cesto de vime? Que nota avalia quem conhece o ciclo da lua e sabe quando plantar? A indústria alimentar que nos convence de que não temos tempo para cozinhar, que é mais prático comprar processado, que cinco ingredientes impronunciáveis são os melhores que três ingredientes da terra. Que transformou comida em combustível rápido em vez de ritual de conexão. A mídia e a publicidade que vendem um estilo de vida global, homogêneo, onde todos devemos consumir as mesmas marcas, ver as mesmas séries, comer as mesmas cadeias de fast-food. Onde a identidade é algo que se compra, não algo que se herda e se constrói. A tecnologia que nos prometeu aproximar as pessoas mas nos afastou de quem está ao lado. Quantas horas conversamos a ver vídeos de desconhecidos enquanto nossas avós morrem sozinhas, levando consigo bibliotecas inteiras de conhecimento que nunca nos preocupamos em perguntar? O capitalismo selvagem que transformou tudo em produto, tudo em lucro. Que matou o comércio local, as feiras, os mercados de proximidade. Que fugiram das aldeias, levaram os jovens para as cidades, deixaram as terras ao abandono e os velhos sozinhos. E nós próprios, que escolhemos a comodidade sobre o que é moderno. Que preferimos pedir comida no celular para aprender a receita da avó. O que achamos mais interessante a vida filtrada do Instagram do que uma conversa sem filtros com quem viveu de verdade. Mas a culpa não nos absolve da responsabilidade. E a responsabilidade exige ação.
Não são apenas receitas que vamos perder. É um modo de estar no mundo. Quando perdemos a tradição de fazer pão, perdemos o ritmo lento, a paciência de esperar que a massa cresça, a conexão com os elementos básicos da vida: água, farinha, sal, tempo. Perdemos o ritual de compartilhar o pão, ainda quente, com quem amamos. Quando perdemos as festas tradicionais, perdemos os ciclos da natureza, as celebrações que marcavam o tempo antes dos calendários digitais. Perdemos a comunidade que se junta não para consumir, mas para sermos juntos. Quando perdemos os ofícios tradicionais, perdemos a dignidade do trabalho manual, a satisfação de criar algo do nada, a autonomia de não depender sempre de especialistas e de supermercados. Quando perdemos a língua dos nossos avós, as expressões, os provérbios, perdemos uma maneira única de ver o mundo. Cada língua, cada dialeto, é uma lente diferente sobre a realidade. Quando perdemos as hortas, perdemos a conexão com a terra, com as estações, com o milagre absurdo de uma semente que se transforma em alimento. E quando perdemos tudo isto, perdemos a nossa identidade. Tornamo-nos consumidores genéricos no mercado global. Folhas soltas sem raízes, a flutuar ao sabor de quem grita mais alto, de quem vende melhor a ilusão.
Mas aqui está a boa notícia, a única que importa: enquanto houver memória, há resgate possível. Enquanto houver um avô vivo, uma receita escrita à mão, uma fotografia antiga, uma história contada, há um fio que podemos puxar. Não se trata de romantizar o passado ou de rejeitar todo o progresso. Trata-se de escolher conscientemente o que vale a pena preservar. Trata-se de considerar que nem tudo o que é antigo é ultrapassado, e nem tudo o que é novo é melhor. Então, o que podemos fazer? Como começamos?
Senta-te com os mais velhos. Antes que seja tarde demais. Os teus avós, os teus pais, os vizinhos idosos. Eles são bibliotecas vivas. Pergunta-lhes como era a vida quando eram jovens, que receitas faziam, que festas celebravam, que histórias ouviam dos pais deles, que técnicas sabem que já ninguém usa. Grava as conversas, com permissão deles. Escrever as receitas. Registre os nomes das plantas, das ferramentas, dos lugares. Este é um ato de resistência radical: preservar a memória numa era de amnésia. Aprenda um ofício tradicional. Não precisa prolongar o seu emprego. Mas aprenda algo com as mãos: fazer pão ou fermentar alimentos, cultivar uma horta nem que seja em vasos, costurar, tricotar, remendar roupa, trabalhar madeira, barro, vime, conservar alimentos como compotas, picles, secar, restaurar em vez de deitar fora. Cada habilidade prática que recupera é um bocado de autonomia que reconquista. É uma forma de dizer: não preciso que o sistema resolva tudo por mim.
Resgata as receitas de família. Pede à tua mãe, avó, tia, aquela receita especial. Mas não peças apenas os ingredientes. Aprenda o como : o ponto certo da massa, o tempo de cozer, os truques que não estão escritos em lado nenhum. Cozinha com elas. E depois, ensina aos teus filhos, sobrinhos, netos. Crie um caderno de receitas de família. Fotografa os pratos. Escrever as histórias que vêm com cada receita. Este é o teu património, mais valores que qualquer herança material. Volta à terra. Mesmo que vivas num apartamento. Mesmo que só tenha uma varanda. Planta algo. Tomates, ervas aromáticas, alfaces. Sente a terra nas mãos. Observe uma semente germinada. Isto reconecta-te com o ciclo mais básico da vida, aquele que a cidade e o supermercado te fizeram esquecer. Se puder, visite quintas, mercados de produtores locais, aldeias. Compra diretamente a quem produz. Fala com eles. Aprenda com eles.
Celebrar as festas tradicionais com consciência. Não como obrigações ou folclore vazio, mas com compreensão do seu significado. Porque é que se celebrou o Solstício? O que você fez o São João? Porque é que cada festa tinha seus pratos específicos? Cria os teus próprios rituais familiares, inspirados nos antigos, mas adaptados à tua realidade. Marca as passagens importantes: estações do ano, colheitas, aniversários, não com consumo mas com presença. Fala a língua. Se ainda sabes expressões, provérbios, palavras do dialeto local, usa-os. Ensina-os aos mais novos. A língua é memória viva. Quando morre uma língua, morre uma maneira de pensar. Construa comunidade. As tradições não existem no vazio. Existem em comunidade. Conhece os teus vizinhos. Partilha comida. Troca saberes. Cria redes de entreajuda. Isto também é tradição: a ideia de que não estamos sozinhos, de que pertencemos a algo maior.
Documenta e partilha. Fotografa, filma, escreve. Partilha nas redes sociais, sim, mas de forma consciente. Use essas ferramentas para preservar e divulgar, não para exibir. Cria arquivos digitais de tradições familiares. Conta as histórias. E desaprende a vergonha. Este é talvez o mais importante: desaprende a vergonha do tradicional, do simples, do rural, do antigo. Não há nada de atrasado em saber fazer pão. Não há nada de ignorante em conhecer plantas medicinais. Não há nada de inferior em trabalhar com as mãos. A verdadeira ignorância é desprezar milénios de sabedoria acumulada porque alguém te convenceu de que só vale o que tem certificado. Ensina aos mais novos. Não espere que o sistema educativo faça isso. Você é responsável. Ensina as crianças à sua volta a plantar, a cozinhar, a fazer, a criar. Leva-as a conhecer os avós, as aldeias, as festas tradicionais. Dá-lhes raízes antes de lhes dares asas.
O verde que cresce entre o asfalto é resiliente porque tem raízes. Mesmo que não as vejam, elas estão lá, agarradas à terra, à procura de nutrientes, de água, de ancoragem. Sem raízes, qualquer ventania arranca a planta. Nós somos como essas plantas. As tradições são as nossas raízes. Não precisamos de viver no passado, mas precisamos de estar enraizados nele para crescermos no presente. precisamos de saber de onde viemos para escolher especificamente para onde vamos. Cortaram-nos as raízes e disseram-nos que assim seríamos livres. Mas uma árvore sem raízes não é livre, é morta. A liberdade verdadeira vem de estarmos tão bem plantados, tão enraizados em nossa identidade, que nenhum vento de propaganda, nenhuma moda, nenhum sistema nos consegue arrancar.
Não temos tempo a perder. A cada dia que passa, morre alguém que sabe. Mais uma receita que nunca foi escrita. Morre um ofício que ninguém aprendeu. Morre uma história que ninguém registrou. Fecha uma porta que nunca mais se abre. Isto não é nostalgia piegas. É uma chamada de emergência. Estamos a perder a diversidade cultural ao mesmo ritmo que perdemos biodiversidade. E quando uma tradição morre, quando uma língua desaparece, quando um saber se perde, empobrece toda a humanidade. Então escolhe hoje: vais ser mais um a deixar que as raízes apodrecem? Ou vai ser uma pessoa que resgata, que preserva, que ensina, que continua? Cada receita que você aprende é um ato de rebelião contra a homogeneização. Cada história que registra é um voto de confiança no futuro. Cada tradição que mantém viva é uma semente plantada para as gerações que virão.
A revolução não está só nas ruas, nos protestos, nos manifestos. Está também na cozinha, na horta, na conversa com os avós, na decisão consciente de não deixar morrer o que nos define. As raízes não aparecem na fotografia, mas são elas que seguram a árvore quando chega uma tempestade. É capaz de sentir as suas coisas? Ou você já nem sabe onde estávamos? Ainda há tempo. Mas não muito. Começa hoje. Faz uma chamada. Pede uma receita. Planta uma semente. Conta uma história. Preservar um pedaço de memória. Porque quando as tradições morrem, morremos um pouco também.
“Um povo sem memória é um povo sem futuro.” - Provérbio
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